Vicente Coimbra

Literatura que acrescenta. Prosa poética, poesia e pensamento por Vicente Coimbra.

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O Voo do Autor

Vicente Coimbra nasceu em Coimbra, onde o Mondego corre sem pressa de chegar ao mar. Cresceu numa cidade onde as ruas eram o quintal comum das casas e as crianças chegavam ao largo como folhas levadas pela água.

Há um homem que escreve, e há outro que vive.
O que vive chama-se João Simões — filho da sua mãe, filho da sua terra, feito de perdas, sobrevivências, trabalho e silêncio. É ele quem carrega a memória, quem sofreu a morte do pai cedo demais e a da mãe tarde demais, quem caminhou pelo seminário, quem trabalhou noites como vigilante, quem aprendeu que a lucidez dói mas disciplina.

Mas o que escreve não podia chamar-se João.

Chama-se Vicente Coimbra.

Vicente, porque é o nome do corvo de Torga — o único que ousou não voltar para a Arca, o que enfrentou Deus com a lógica simples da liberdade, o que recusou a salvação impostora e escolheu ser dono do próprio destino, mesmo que isso significasse morrer.
Vicente é, para mim, essa figura: o ser que olha o mundo de frente, sem a protecção da fé ou das ilusões.
O ser que prefere a verdade difícil à segurança fácil.
O ser que, molhado até aos ossos, pousa no último pedaço de terra e diz: “Aqui fico, porque aqui sou livre.”

Coimbra, porque é a nesga de terra onde nasci.
A minha Arca e o meu outeiro.
O lugar exacto onde a minha humanidade se exerceu: infância pobre, irmãos muitos, perdas grandes, afectos raros, trabalho duro, e a noção de que a cidade que me formou é também o chão onde retorno sempre que escrevo.

Vicente Coimbra é, portanto, a fusão destas duas forças:

o universal que desafia,
e
o local que sustém.

Não é pseudónimo para esconder: é nome para dizer melhor.
É ferramenta, pássaro, território e gesto.
Escrevo com ele porque só ele me permite transformar feridas em sentido, memória em claridade, vida em literatura.

João é o menino da sua mãe.
Vicente é o homem que olha o abismo sem pestanejar.

E ambos, juntos, escrevem o que tenho para oferecer.

“A palavra só presta se estragar qualquer coisa que fingia estar inteira.”

A sua obra atravessa poesia, prosa e televisão com uma coerência que não é de género — é de obsessão. O tempo que foge. A dignidade dos que resistem. A lucidez que chega quando as ilusões começam a cair.

Escreveu seis livros. Criou Halter Ego — uma consciência sem piedade que diz o que o mundo prefere não ouvir. Desenvolveu o Circunstancialismo, sistema filosófico sobre a possibilidade de ser. Escreve a série O Júri, sobre o julgamento de um homem que matou o filho para o salvar.

“O impossível ainda é o meu território. Mas já não é um território de derrota. Aprendi que habitar o impossível é a condição humana. Nascemos, amamos, morremos — tudo isso é impossível e acontece.”

Talvez o novo mapa seja o dos pequenos gestos que resistem: o pão partido, a mão que segura outra mão, o silêncio que não pesa.

Quando o filho lhe perguntou o que devia ser quando crescesse, Vicente Coimbra respondeu sem hesitar: um homem de bem. Porque tudo o resto — profissão, sucesso, reconhecimento — são apenas circunstâncias. Ser um homem de bem é a única coisa que verdadeiramente depende de nós.

“Tudo o que quero é permanecer. E permanecer é tudo o que não posso.”

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