Há um homem que escreve, e há outro que vive.
O que vive chama-se João Simões — filho da sua mãe, filho da sua terra, feito de perdas, sobrevivências, trabalho e silêncio. É ele quem carrega a memória, quem sofreu a morte do pai cedo demais e a da mãe tarde demais, quem caminhou pelo seminário, quem trabalhou noites como vigilante, quem aprendeu que a lucidez dói mas disciplina.
Mas o que escreve não podia chamar-se João.
Chama-se Vicente Coimbra.
Vicente, porque é o nome do corvo de Torga — o único que ousou não voltar para a Arca, o que enfrentou Deus com a lógica simples da liberdade, o que recusou a salvação impostora e escolheu ser dono do próprio destino, mesmo que isso significasse morrer.
Vicente é, para mim, essa figura: o ser que olha o mundo de frente, sem a protecção da fé ou das ilusões.
O ser que prefere a verdade difícil à segurança fácil.
O ser que, molhado até aos ossos, pousa no último pedaço de terra e diz: “Aqui fico, porque aqui sou livre.”
Coimbra, porque é a nesga de terra onde nasci.
A minha Arca e o meu outeiro.
O lugar exacto onde a minha humanidade se exerceu: infância pobre, irmãos muitos, perdas grandes, afectos raros, trabalho duro, e a noção de que a cidade que me formou é também o chão onde retorno sempre que escrevo.
Vicente Coimbra é, portanto, a fusão destas duas forças:
o universal que desafia,
e
o local que sustém.
Não é pseudónimo para esconder: é nome para dizer melhor.
É ferramenta, pássaro, território e gesto.
Escrevo com ele porque só ele me permite transformar feridas em sentido, memória em claridade, vida em literatura.
João é o menino da sua mãe.
Vicente é o homem que olha o abismo sem pestanejar.
E ambos, juntos, escrevem o que tenho para oferecer.